sábado, 10 de março de 2012

VIDEOGAME

Com a volta da onda dos videogames, ele se animou a pegar o velho aparelho de primeira geração, encostado há cinco anos. Depois de algumas tentativas, o bicho voltou a funcionar, e ele ficou lá, jogando por quase uma hora. Depois, desligou e voltou aos seus afazeres habituais.


No segundo dia, foram três horas diante da telinha. No terceiro, não parava mais, a não ser para pegar um lanche na cozinha. Os olhos vidrados, as mãos trêmulas.


Os dias seguintes foram idênticos: o tempo todo destruindo invasores marcianos. Deixou de ir à faculdade, de ligar para os amigos, enfim, de fazer qualquer outra coisa. Seus pais se preocupavam, mas não conseguiam resolver o problema.


Um dia, um grupo de amigos veio visitá-lo: os pais pediram sua ajuda. Foram recebidos em seu quarto, ele continuava jogando...


- Ô cara, que é que houve?


- Zig...


- Você não foi mais à faculdade, o pessoal achou que você tava doente...


- Trruuuu...


- A Claudinha, aquela gata, tá querendo te ver.


- Zig-trruuuuu...


- É, esquece turma. Esse não tem mais jeito...




X X X


Na segunda semana de jogos ininterruptos, porém, aconteceu o inesperado: logo pela manhã, faltou energia elétrica. Sem entender bem o que estava acontecendo, ficou parado diante da televisão, com o olhar embasbacado, por três horas. Como a energia não voltasse, terminou por se levantar e sair do quarto.

Chegando à varanda, foi obrigado a apertar os olhos para se defender da luminosidade do dia. A manhã de setembro estava linda: clara e fresca. O raciocínio começou a voltar. "Meu deus, que coisa maravilhosa!" Sorriu para os pássaros na árvore e decidiu:

- Está na hora de reorganizar a vida, ir à luta, procurar as pessoas...

Resolveu começar indo até a banca comprar o jornal.

Política nacional: corrupção, escândalos, fraudes; economia: arrocho salarial; notícias internacionais: estátuas de Lênin e Marx sendo derrubadas pelo povo; esportes: Seleção perde outra vez...

Voltou para casa. A energia havia retornado às tomadas... e ele ao videogame.

sábado, 3 de março de 2012

A INVASÃO DOS MONSTROS JAPONESES

Eram 16 horas e 30 minutos quando entrou no ar a edição especial do Jornal da Manchete, anunciando o início do pesadelo:


- Seis monstros de filmes japoneses escaparam de suas respectivas fitas há vinte minutos nas dependências de nossa emissora, no Rio de Janeiro. A Segurança deu o alarme após um de seus membros ter o revólver devorado por uma coisa verde e gosmenta, que se recusava a permitir que o funcionário em questão revistasse sua bolsa. Um operador foi encontrado inconsciente em meio a um emaranhado de fitas. Testemunhas afirmam ter visto alguns monstros saindo da empresa em carros importados de nossos diretores, mas não confirmam se as seis bestas ou apenas parte do bando está nas ruas. Um senhor de 56 anos disse que foi abordado por uma das criaturas, que queria saber em que direção ficava Tóquio. Há cinco minutos foram vistos seguindo para... Ei!... Mas o que é isto?!... Socor... Argh!...




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Às 17 horas a agência noticiosa CNN transmitiu o pronunciamento do presidente morte, digo, norte-americano sobre a crise nipo-latina-alienígena. O teor do discurso era a condenação daquilo que afirmava ser uma intervenção japonesa nos assuntos internos do seu quintal, digo, do Brasil:


- Considerando o poder de destruição já demonstrado pelos aparelhos eletrodomésticos e carros nipônicos, que invadiram o nosso mercado, podemos prever uma verdadeira carnificina no caso dos monstros agressores da capital cultural brasileira, Buenos Aires. O caso é ainda mais grave, pois evidencia uma aliança entre os orientais e seres de outros planetas, sobre cujas sociedades não temos qualquer informação, podendo inclusive tratar-se de comunistas.


Depois de conclamar todas as nações da Terra a pressionar para que o Japão retirasse seus monstros, eletrodomésticos e carros do Ocidente, rompendo a aliança com esses seres vermelhos e seus discos-voadores, o presidente do mund..., digo, dos Estados Unidos concluiu de forma bastante original e emocionada:


- Deus abençoe a Cidade Sorriso.




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Entrevistado por diversos repórteres às 18 horas e quinze minutos em Brasília, o ministro do Exército, general Geraldo da Banda, reclamou que, devido à verba destinada às Forças Armadas ser insuficiente, estas não estavam preparadas adequadamente para o combate aos alienígenas vermelhos, tanto mais que seu preparo sempre visou a eliminação de comunistas tupiniquins ou, pelo menos, terráqueos. O general garantiu, no entanto, que as instituições democráticas seriam preservadas a qualquer preço, mesmo que para isso tivesse que fechar o Congresso ou prender e arrebentar algumas pessoas inocentes:


- Podem ser inocentes úteis, justificou o general.




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A época era de eleições - o Brasil é como aquelas gordas que passam fome para emagrecer e, quando voltam a comer, não conseguem mais parar: ficou mais de vinte anos sem eleições de verdade e agora todo ano nos obriga a aturar personagens folclóricos, que teimam em se candidatar a qualquer coisa. Mas, como eu ia dizendo, a época era de eleições, e a inusitada fuga dos monstros causou um rebuliço danado nas coordenações das campanhas. Os partidos de esquerda começaram os entendimentos para a realização de um comício-monstro em defesa dos direitos das minorias, como homossexuais, índios e seres extraterrestres. Os redatores dos programas para o horário gratuito do TRE rasgavam os roteiros já escritos e criavam novos, abordando a invasão. Devido à rapidez dos acontecimentos, a maior parte dos programas não pôde ser regravada, e a maioria dos candidatos optou por fazer ao vivo sua aparição na TV.


O primeiro a falar foi o deputado de direita Amaral Filho. Ele estava defendendo a pena de morte para os alienígenas, quando o estúdio foi invadido pelos próprios. Um dos seres engoliu o deputado. Depois, disfarçando um arroto, sentou-se diante das câmeras e começou seu pronunciamento:


- Brasileiras e brasileiros, não acreditem no que andam dizendo a nosso respeito. É tudo intriga daqueles que invejam nosso sucesso. Não queremos fazer mal a ninguém. Se fugimos dos nossos filmes não foi por tédio ou maldade, queremos apenas, como os andróides do Blade Runner, conhecer o princípio de tudo, saber de onde viemos e para onde vamos, enfim, queremos perguntar ao responsável por nossa criação qual o sentido da vida. Por isso, exigimos: tragam-nos o Nacional Kid.




X X X




A madrugada avançava quando o presidente do Fã-Clube Nacionaro Kido, Akiro Tarô, entrou no estúdio cercado pelas tropas federais, para negocionar com os monstros. Após quinze minutos, apareceu à janela para avisar que estava tudo bem e que as negociações prosseguiam. Ao final de meia hora, protegidos pelos observadores internacionais enviados pela ONU, os seres deixaram o prédio, pacificamente, em companhia do negociador, que acenava e sorria para os repórteres, seguindo em direção à sede do fã-clube.




X X X




Em entrevista coletiva, na manhã seguinte, Akiro disse que comoveu os seres com sua paixão por Nacional Kid, a quem, como eles, jamais conhecera pessoalmente. Procurou sensibilizá-los para a necessidade de preservar sua imagem para as gerações posteriores e fazer a alegria de crianças e videomaníacos, enfim, jogou a maior conversa mole para monstro dormir... Para sua surpresa, as criaturas se convenceram, chegando mesmo às lágrimas, e concordaram em se juntar a Akiro e ajudá-lo em sua missão.


- Aliás, prosseguiu Akiro, gostaria de encerrar a coletiva, convidando a todos para assistir na próxima semana, na sede do fã-clube, à estréia da peça "Nacional Kid contra os Incas Venusianos", apresentando este que vos fala no papel de Nacional Kid, e os seres extraterrestres como os Incas Venusianos. Além disso, estamos programando para o mês que vem o lançamento do grupo Nacional Kids on the Block, meus amigos alienígenas já estão estudando os passos de dança, e acho que vai ser o maior sucesso. Arigatô e até breve.


E encerrou a entrevista.