Com a volta da onda dos videogames, ele se animou a pegar o velho aparelho de primeira geração, encostado há cinco anos. Depois de algumas tentativas, o bicho voltou a funcionar, e ele ficou lá, jogando por quase uma hora. Depois, desligou e voltou aos seus afazeres habituais.
No segundo dia, foram três horas diante da telinha. No terceiro, não parava mais, a não ser para pegar um lanche na cozinha. Os olhos vidrados, as mãos trêmulas.
Os dias seguintes foram idênticos: o tempo todo destruindo invasores marcianos. Deixou de ir à faculdade, de ligar para os amigos, enfim, de fazer qualquer outra coisa. Seus pais se preocupavam, mas não conseguiam resolver o problema.
Um dia, um grupo de amigos veio visitá-lo: os pais pediram sua ajuda. Foram recebidos em seu quarto, ele continuava jogando...
- Ô cara, que é que houve?
- Zig...
- Você não foi mais à faculdade, o pessoal achou que você tava doente...
- Trruuuu...
- A Claudinha, aquela gata, tá querendo te ver.
- Zig-trruuuuu...
- É, esquece turma. Esse não tem mais jeito...
X X X
Na segunda semana de jogos ininterruptos, porém, aconteceu o inesperado: logo pela manhã, faltou energia elétrica. Sem entender bem o que estava acontecendo, ficou parado diante da televisão, com o olhar embasbacado, por três horas. Como a energia não voltasse, terminou por se levantar e sair do quarto.
Chegando à varanda, foi obrigado a apertar os olhos para se defender da luminosidade do dia. A manhã de setembro estava linda: clara e fresca. O raciocínio começou a voltar. "Meu deus, que coisa maravilhosa!" Sorriu para os pássaros na árvore e decidiu:
- Está na hora de reorganizar a vida, ir à luta, procurar as pessoas...
Resolveu começar indo até a banca comprar o jornal.
Política nacional: corrupção, escândalos, fraudes; economia: arrocho salarial; notícias internacionais: estátuas de Lênin e Marx sendo derrubadas pelo povo; esportes: Seleção perde outra vez...
Voltou para casa. A energia havia retornado às tomadas... e ele ao videogame.
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