domingo, 27 de maio de 2012

Crônicas de uma República de Bananas: A INVASÃO DOS MONSTROS JAPONESES

Crônicas de uma República de Bananas: A INVASÃO DOS MONSTROS JAPONESES: Eram 16 horas e 30 minutos quando entrou no ar a edição especial do Jornal da Manchete, anunciando o início do pesadelo: - Seis monstros d...

UM BRINCO

O menino chega em casa com sua bolsa de colégio, uniforme e um discreto, mas paradoxalmente escandaloso, brinco de pressão na orelha esquerda. Sua mãe estranha:
- Que novidade é essa, menino?! Seu pai não vai gostar...
- Ah! Qual é, mãe? Dá um tempo!
Sentado na sala, o pai só faz confirmar a capacidade materna de prever o futuro:
- Que é isso, moleque?
- Um brinco.
- Ah, é?! Que gracinha! No meu tempo isso era coisa de mulher.
- É, mas agora não é mais.
- Ah!... Agora é de mulher e bicha, né?
- Ô, pai... Não tá vendo que eu tô usando ele na orelha esquerda?... Bicha usa é na orelha direita...
- Só faltava essa... Vai me dizer que homem também pode pôr cílios postiços, desde que seja no olho esquerdo?
- Eu desisto. Tchau, pai!
- Tchau, ô do brinquinho.

X X X

Enquanto ele está ouvindo um som no quarto, na sala o pai conversa com o filho mais velho, que chegara para o almoço:
- Pois é, seu irmão agora anda de brinquinho...
- Ah, que veadinho!... Quer dizer que ele furou a orelha?
- Não, era só o que faltava. É de pressão.
- Pelo menos isso.
Nisso, o objeto da conversa passa pela sala. Sem o brinco. O pai ataca:
- Ah, tomou vergonha na cara e tirou aquele troço!
- Não enche, pai!
E o irmão debochado:
- Aonde a Greta Garbo vai sem o brinquinho?
- Furar a orelha, por quê?
O pai quase enfarta.

X X X

Na volta, encontra o irmão hesitante:
- Ê... Posso te pedir uma coisa?
- Se for gozação, esquece.
- Não... É que... já que você furou a orelha, será que eu poderia ficar com o brinco de pressão?
- Ué, mas não era coisa de veado?!
- É. Mas acontece que a Lucinha gosta de homem com brinco.
- Tá legal, pode ficar, ô bichona.
- Eu sou é homem.
- Tá legal...

X X X

Com o tempo, o pai foi se acostumando e ficou mais tranquilo depois que soube que o filho adolescente arrumou uma namorada. Ele fez questão de conhecer a menina, era namorada mesmo.

X X X

Essa história me foi contada por um amigo e me fez lembrar o tempo em que tanto batalhei para usar o cabelo cobrindo as orelhas, esse corte hoje desprezado pela geração do brinco... Mas eu estou com o guri, temos mais é que brigar por nossas próprias vontades, eu sei o quanto isso é importante para a afirmação de nossa identidade. Vai fundo, garoto, e não dê bola para a senil incompreensão dos outros. Vai fundo.

domingo, 13 de maio de 2012

TROCANDO AS LETRAS

- Hum!
- Ah...
- Vem, meu amor, vem!
- Ah... ah... Susane...
- Epa! Que história é essa?!
- Como?
- Você me chamou por outro nome!
- Que é isso?! Eu te chamei pelo seu nome. Ou você mudou de nome, Susana?
- Não me venha com essa! Eu escutei muito bem: você me chamou de Susane! Quem é essa perua?! É sua amante, é?!
- Ô, amor!... Você não deve ter escutado direito... E, supondo que eu tenha dito mesmo Susane...
- E ainda repete!
- ... está óbvio que foi apenas uma troca de letras. Nem tudo tem um significado oculto. Você anda lendo Freud demais.
- Eu não estou falando de atos falhos, nem de inconsciente, seu safado! Estou falando de uma traição consciente. E ainda arruma essa sirigaita com um nome horroroso desses...
- Mas...
- Nada de "mas". E vai dormir no sofá da sala. Amanhã a gente conversa!
- Poxa, amor...
- Vai!
- Tá bom...

X X X

- E aí? Já se convenceu de que foi apenas uma troca de letras?
- Ainda não.
- Então, tá legal. Eu não vou mais insistir. Quando quiser conversar, você me procura. Agora tenho que ir trabalhar. Tchau.

X X X

Durante toda a semana, ela procurou uma evidência que fosse da traição. Vasculhou a memória e as coisas dele. Nada. Nenhuma Susane conhecida. A secretária dele se chamava Adelaide. Ele nunca se atrasara, nunca alegara cansaço para deixar de fazer amor com ela, nunca fez nada que pudesse sugerir uma traição. Nas suas coisas também não havia nada que evidenciasse uma amante. Nenhum bilhete, maço de cigarros ou manchas de batom na roupa. Nenhum indício na agenda. Escutou seus telefonemas pela extensão. Nada.
Era óbvio que fora apenas uma troca de letras. Sentindo-se meio ridícula, mas muito feliz, pediu desculpas por ter duvidado dele, disse que era uma idiota e que ele era o melhor marido do mundo.
- Tudo bem. Eu entendo como você se sentiu. Agora vamos botar uma pedra em cima desse assunto, e eu juro que nunca mais vou trocar o seu nome.

X X X

- Pois é, pra você ver o que uma simples letrinha pode fazer... Quase acabou com meu casamento.
- Mas ela custou tanto assim a acreditar em você?
- É, foram sete dias de suplício. Mas agora está tudo bem...
- Vê se toma mais cuidado de agora em diante.
- Pode deixar, Susane.

domingo, 6 de maio de 2012

CONTINHO ESCATOLÓGICO

Era um homem feliz. Depois de alguns anos de luta, conseguira se estabelecer, ocupando um cargo de gerência na grande empresa onde trabalhava. Todos os dias, almoçava no restaurante da empresa, em companhia de gerentes de outras áreas. Seu temperamento (espirituoso, mas nunca a ponto de perder a compostura) despertava a admiração e o carinho dos colegas.
Um dia estava almoçando, como sempre fazia, na mesa dos gerentes, quando se ouviu, alto e bom som:
- Arrout!
Saiu de repente, ele não pôde evitar. Os amigos olharam sério, em tom de reprovação. Não adiantava fazer qualquer gracejo ou tentar se desculpar: a besteira estava feita.
Sem graça, deixou a mesa com o prato ainda na metade, fingindo mal-estar. Foi para casa mais cedo: não aguentava de vergonha!
Em casa, antes de dormir, pensou: "também não é tão trágico assim, já-já o pessoal esquece e fica tudo bem."
Não ficou. As semanas seguintes foram do mais perverso terror. A história havia extrapolado o círculo dos gerentes e alcançara toda a empresa. As pessoas o evitavam e, quando isso não era possível, o tratavam com frieza, franzindo o cenho e limitando-se ao estritamente necessário. Seus colegas de almoço mudaram de mesa e, se ele insinuava qualquer intenção de acompanhá-los, decidiam subitamente, sem avisá-lo, almoçar fora.
Agora a situação estava definitivamente insustentável: já era alvo das chacotas dos contínuos... Aquilo não podia prosseguir! Tomou a decisão mais dolorosa da sua vida: abandonou a empresa, que era como se fosse sua famíla, e resolveu começar de novo, tentando a sorte em outro lugar onde ninguém soubesse do episódio.
Por excesso de zelo ou pura paranóia, preferiu mudar também de cidade. Logo conseguiu emprego em outra firma, afinal, seu currículo era invejável. Foi galgando posições graças à sua disposição e ao seu espírito de liderança. Em pouco tempo teve seu valor novamente reconhecido: voltara à gerência, e numa firma muito melhor. Seu prestígio era tanto, que passou a almoçar com os diretores da empresa...
Foi então que num desses almoços se escutou:
- Puuffffff...