- E aí, filhinho? Vamos almoçar?!
- Vamos!
- Então abre a boquinha.
- Não quero!
- Mas você disse que queria papar...
- Mas eu não quero.
- Ah! Que coisa feia... Tem que papar pra ficar forte. Olha o aviãozinho: uóóó...
E o menino de boca fechada:
- ...
- Se não comer, não pode brincar com a tartaruga-ninja.
- ...
- Ah, filhinho!... Come então só a carninha e a batatinha.
- Não quero...
- Batatinha frita que você gosta tanto...
- Não!
- Quer levar umas palmadas?
- ...
- Tá bom. Se você não quer comer, não come. Vou guardar na geladeira a sua comida. Pronto. Agora, deixa a mamãe comer.
- Mãe ê...
- Que é?
- Quero comer.
Este blog é destinado à postagem de crônicas e contos que escrevi durante a década de 1980 e que fazem parte de um livro inédito intitulado: A Invasão dos Monstros Japoneses ou Crônicas de uma República de Bananas. Espero que os textos ainda tenham alguma relevância.
sábado, 16 de junho de 2012
quinta-feira, 7 de junho de 2012
ESPORTES URBANOS
O sucesso dos esportes de praia, como o surfe e o body-boarding (que nos tempos do amadorismo se chamava "pegar jacaré"), tem movimentado muito dinheiro de patrocinadores, belas pernas femininas e músculos viris de garotões, que infelizmente são incapazes de expressar qualquer pensamento, por mais simples que seja, em língua portuguesa (alguns teóricos do comportamento afirmam que o problema não é com a linguagem, mas com a capacidade de pensar). De olho no dinheiro dos patrocinadores e nas pernas das meninas, e tendo como pretexto levar as delícias do esporte àqueles que não dispõem de facilidades para ir constantemente ao "marzão", resolvi criar o projeto dos Primeiros Jogos Urbanos, na esperança de que alguém compre a idéia.
O campeonato deverá ser composto de quatro provas obrigatórias para todos os participantes.
A primeira será a do mais tradicional e popular dos esportes urbanos: o surfe ferroviário. Nesta prova os pontos serão atribuídos à combinação das manobras radicais com a velocidade, por isso é fundamental pegar um bom trem, deixando as marias-fumaças para os iniciantes. O candidato que não conseguir se desviar dos fios de alta tensão será automaticamente eliminado.
Os candidatos não-eliminados participarão então da segunda prova, que combina força e velocidade: o body-boarding metroviário. A prova começará na estação Maria da Graça, linha 2, já que o pré-metrô quase nunca funciona. Ao chegar à estação Estácio, os candidatos deverão saltar, escapar dos guardas metroviários e subir correndo as escadas rolantes para alcançar o trem da linha 1, que os levará ao final da prova na estação Botafogo. Aqueles que caírem nos trilhos energizados não passarão para a próxima prova, mas poderão passar desta para a melhor, como prêmio de consolação.
Terminando a fase de classificação, teremos a prova de ski rodoviário, nas categorias skate e bicicleta. A prova consiste em realizar manobras radicais com a bicicleta ou o skate, agarrado a um ônibus em movimento.
Os que se classificarem após as três primeiras etapas, deverão viajar para o Japão, onde será realizada a última prova dos Jogos de Esportes Urbanos: o ski ferroviário, prova de velocidade em que o atleta, com o auxílio de um skate e uma corda, será puxado pelo trem-bala.
Todos os sobreviventes receberão certificados de participação nos jogos, e os três primeiros colocados serão agraciados com vales-transporte para um ano de idas e vindas e, assim, poderão finalmente viajar dentro dos ônibus e trens.
domingo, 27 de maio de 2012
Crônicas de uma República de Bananas: A INVASÃO DOS MONSTROS JAPONESES
Crônicas de uma República de Bananas: A INVASÃO DOS MONSTROS JAPONESES: Eram 16 horas e 30 minutos quando entrou no ar a edição especial do Jornal da Manchete, anunciando o início do pesadelo: - Seis monstros d...
UM BRINCO
O menino chega em casa com sua bolsa de colégio, uniforme e um discreto, mas paradoxalmente escandaloso, brinco de pressão na orelha esquerda. Sua mãe estranha:
- Que novidade é essa, menino?! Seu pai não vai gostar...
- Ah! Qual é, mãe? Dá um tempo!
Sentado na sala, o pai só faz confirmar a capacidade materna de prever o futuro:
- Que é isso, moleque?
- Um brinco.
- Ah, é?! Que gracinha! No meu tempo isso era coisa de mulher.
- É, mas agora não é mais.
- Ah!... Agora é de mulher e bicha, né?
- Ô, pai... Não tá vendo que eu tô usando ele na orelha esquerda?... Bicha usa é na orelha direita...
- Só faltava essa... Vai me dizer que homem também pode pôr cílios postiços, desde que seja no olho esquerdo?
- Eu desisto. Tchau, pai!
- Tchau, ô do brinquinho.
- Que novidade é essa, menino?! Seu pai não vai gostar...
- Ah! Qual é, mãe? Dá um tempo!
Sentado na sala, o pai só faz confirmar a capacidade materna de prever o futuro:
- Que é isso, moleque?
- Um brinco.
- Ah, é?! Que gracinha! No meu tempo isso era coisa de mulher.
- É, mas agora não é mais.
- Ah!... Agora é de mulher e bicha, né?
- Ô, pai... Não tá vendo que eu tô usando ele na orelha esquerda?... Bicha usa é na orelha direita...
- Só faltava essa... Vai me dizer que homem também pode pôr cílios postiços, desde que seja no olho esquerdo?
- Eu desisto. Tchau, pai!
- Tchau, ô do brinquinho.
X X X
Enquanto ele está ouvindo um som no quarto, na sala o pai conversa com o filho mais velho, que chegara para o almoço:
- Pois é, seu irmão agora anda de brinquinho...
- Ah, que veadinho!... Quer dizer que ele furou a orelha?
- Não, era só o que faltava. É de pressão.
- Pelo menos isso.
Nisso, o objeto da conversa passa pela sala. Sem o brinco. O pai ataca:
- Ah, tomou vergonha na cara e tirou aquele troço!
- Não enche, pai!
E o irmão debochado:
- Aonde a Greta Garbo vai sem o brinquinho?
- Furar a orelha, por quê?
O pai quase enfarta.
X X X
Na volta, encontra o irmão hesitante:
- Ê... Posso te pedir uma coisa?
- Se for gozação, esquece.
- Não... É que... já que você furou a orelha, será que eu poderia ficar com o brinco de pressão?
- Ué, mas não era coisa de veado?!
- É. Mas acontece que a Lucinha gosta de homem com brinco.
- Tá legal, pode ficar, ô bichona.
- Eu sou é homem.
- Tá legal...
X X X
Com o tempo, o pai foi se acostumando e ficou mais tranquilo depois que soube que o filho adolescente arrumou uma namorada. Ele fez questão de conhecer a menina, era namorada mesmo.
X X X
Essa história me foi contada por um amigo e me fez lembrar o tempo em que tanto batalhei para usar o cabelo cobrindo as orelhas, esse corte hoje desprezado pela geração do brinco... Mas eu estou com o guri, temos mais é que brigar por nossas próprias vontades, eu sei o quanto isso é importante para a afirmação de nossa identidade. Vai fundo, garoto, e não dê bola para a senil incompreensão dos outros. Vai fundo.
domingo, 13 de maio de 2012
TROCANDO AS LETRAS
- Hum!
- Ah...
- Vem, meu amor, vem!
- Ah... ah... Susane...
- Epa! Que história é essa?!
- Como?
- Você me chamou por outro nome!
- Que é isso?! Eu te chamei pelo seu nome. Ou você mudou de nome, Susana?
- Não me venha com essa! Eu escutei muito bem: você me chamou de Susane! Quem é essa perua?! É sua amante, é?!
- Ô, amor!... Você não deve ter escutado direito... E, supondo que eu tenha dito mesmo Susane...
- E ainda repete!
- ... está óbvio que foi apenas uma troca de letras. Nem tudo tem um significado oculto. Você anda lendo Freud demais.
- Eu não estou falando de atos falhos, nem de inconsciente, seu safado! Estou falando de uma traição consciente. E ainda arruma essa sirigaita com um nome horroroso desses...
- Mas...
- Nada de "mas". E vai dormir no sofá da sala. Amanhã a gente conversa!
- Poxa, amor...
- Vai!
- Tá bom...
X X X
- E aí? Já se convenceu de que foi apenas uma troca de letras?
- Ainda não.
- Então, tá legal. Eu não vou mais insistir. Quando quiser conversar, você me procura. Agora tenho que ir trabalhar. Tchau.
X X X
Durante toda a semana, ela procurou uma evidência que fosse da traição. Vasculhou a memória e as coisas dele. Nada. Nenhuma Susane conhecida. A secretária dele se chamava Adelaide. Ele nunca se atrasara, nunca alegara cansaço para deixar de fazer amor com ela, nunca fez nada que pudesse sugerir uma traição. Nas suas coisas também não havia nada que evidenciasse uma amante. Nenhum bilhete, maço de cigarros ou manchas de batom na roupa. Nenhum indício na agenda. Escutou seus telefonemas pela extensão. Nada.
Era óbvio que fora apenas uma troca de letras. Sentindo-se meio ridícula, mas muito feliz, pediu desculpas por ter duvidado dele, disse que era uma idiota e que ele era o melhor marido do mundo.
- Tudo bem. Eu entendo como você se sentiu. Agora vamos botar uma pedra em cima desse assunto, e eu juro que nunca mais vou trocar o seu nome.
X X X
- Pois é, pra você ver o que uma simples letrinha pode fazer... Quase acabou com meu casamento.
- Mas ela custou tanto assim a acreditar em você?
- É, foram sete dias de suplício. Mas agora está tudo bem...
- Vê se toma mais cuidado de agora em diante.
- Pode deixar, Susane.
domingo, 6 de maio de 2012
CONTINHO ESCATOLÓGICO
Era um homem feliz. Depois de alguns anos de luta, conseguira se estabelecer, ocupando um cargo de gerência na grande empresa onde trabalhava. Todos os dias, almoçava no restaurante da empresa, em companhia de gerentes de outras áreas. Seu temperamento (espirituoso, mas nunca a ponto de perder a compostura) despertava a admiração e o carinho dos colegas.
Um dia estava almoçando, como sempre fazia, na mesa dos gerentes, quando se ouviu, alto e bom som:
- Arrout!
Saiu de repente, ele não pôde evitar. Os amigos olharam sério, em tom de reprovação. Não adiantava fazer qualquer gracejo ou tentar se desculpar: a besteira estava feita.
Sem graça, deixou a mesa com o prato ainda na metade, fingindo mal-estar. Foi para casa mais cedo: não aguentava de vergonha!
Em casa, antes de dormir, pensou: "também não é tão trágico assim, já-já o pessoal esquece e fica tudo bem."
Não ficou. As semanas seguintes foram do mais perverso terror. A história havia extrapolado o círculo dos gerentes e alcançara toda a empresa. As pessoas o evitavam e, quando isso não era possível, o tratavam com frieza, franzindo o cenho e limitando-se ao estritamente necessário. Seus colegas de almoço mudaram de mesa e, se ele insinuava qualquer intenção de acompanhá-los, decidiam subitamente, sem avisá-lo, almoçar fora.
Agora a situação estava definitivamente insustentável: já era alvo das chacotas dos contínuos... Aquilo não podia prosseguir! Tomou a decisão mais dolorosa da sua vida: abandonou a empresa, que era como se fosse sua famíla, e resolveu começar de novo, tentando a sorte em outro lugar onde ninguém soubesse do episódio.
Por excesso de zelo ou pura paranóia, preferiu mudar também de cidade. Logo conseguiu emprego em outra firma, afinal, seu currículo era invejável. Foi galgando posições graças à sua disposição e ao seu espírito de liderança. Em pouco tempo teve seu valor novamente reconhecido: voltara à gerência, e numa firma muito melhor. Seu prestígio era tanto, que passou a almoçar com os diretores da empresa...
Foi então que num desses almoços se escutou:
- Puuffffff...
quarta-feira, 4 de abril de 2012
CRÔNICA DE UMA MONARQUIA DE BANANAS
Num reino não identificado em tempo indefinido, o velho rei entretinha seu filho contando histórias, com que procurava diverti-lo e educá-lo. Uma de suas favoritas era a "história do rei prudente":
- Meu filho, um rei houve que, conhecendo a cobiça e a sede de poder em sua corte, soube se defender. Ordenou ao serviçal de sua maior confiança que acrescentasse sempre uma gota de veneno ao cálice de vinho que Sua Majestade ingeria durante o almoço. Assim foi, dia após dia, por muitos anos. Quando os conspiradores tentaram matá-lo por envenenamento, seu organismo já havia criado resistência à substância tóxica. O rei sobreviveu e condenou os traidores à morte, forçando-os a tomar o veneno.
X X X
O príncipe cresceu e tornou-se rei. Guardando no coração os conselhos de seu pai e tendo vívida em sua mente a história daquele rei precavido, decidiu seguir seu exemplo. Durante anos bebeu, todos os dias, um cálice de vinho acrescido de uma gota de cicuta.
Morreu envenenado por arsênico.
sábado, 10 de março de 2012
VIDEOGAME
Com a volta da onda dos videogames, ele se animou a pegar o velho aparelho de primeira geração, encostado há cinco anos. Depois de algumas tentativas, o bicho voltou a funcionar, e ele ficou lá, jogando por quase uma hora. Depois, desligou e voltou aos seus afazeres habituais.
No segundo dia, foram três horas diante da telinha. No terceiro, não parava mais, a não ser para pegar um lanche na cozinha. Os olhos vidrados, as mãos trêmulas.
Os dias seguintes foram idênticos: o tempo todo destruindo invasores marcianos. Deixou de ir à faculdade, de ligar para os amigos, enfim, de fazer qualquer outra coisa. Seus pais se preocupavam, mas não conseguiam resolver o problema.
Um dia, um grupo de amigos veio visitá-lo: os pais pediram sua ajuda. Foram recebidos em seu quarto, ele continuava jogando...
- Ô cara, que é que houve?
- Zig...
- Você não foi mais à faculdade, o pessoal achou que você tava doente...
- Trruuuu...
- A Claudinha, aquela gata, tá querendo te ver.
- Zig-trruuuuu...
- É, esquece turma. Esse não tem mais jeito...
X X X
Na segunda semana de jogos ininterruptos, porém, aconteceu o inesperado: logo pela manhã, faltou energia elétrica. Sem entender bem o que estava acontecendo, ficou parado diante da televisão, com o olhar embasbacado, por três horas. Como a energia não voltasse, terminou por se levantar e sair do quarto.
Chegando à varanda, foi obrigado a apertar os olhos para se defender da luminosidade do dia. A manhã de setembro estava linda: clara e fresca. O raciocínio começou a voltar. "Meu deus, que coisa maravilhosa!" Sorriu para os pássaros na árvore e decidiu:
- Está na hora de reorganizar a vida, ir à luta, procurar as pessoas...
Resolveu começar indo até a banca comprar o jornal.
Política nacional: corrupção, escândalos, fraudes; economia: arrocho salarial; notícias internacionais: estátuas de Lênin e Marx sendo derrubadas pelo povo; esportes: Seleção perde outra vez...
Voltou para casa. A energia havia retornado às tomadas... e ele ao videogame.
sábado, 3 de março de 2012
A INVASÃO DOS MONSTROS JAPONESES
Eram 16 horas e 30 minutos quando entrou no ar a edição especial do Jornal da Manchete, anunciando o início do pesadelo:
- Seis monstros de filmes japoneses escaparam de suas respectivas fitas há vinte minutos nas dependências de nossa emissora, no Rio de Janeiro. A Segurança deu o alarme após um de seus membros ter o revólver devorado por uma coisa verde e gosmenta, que se recusava a permitir que o funcionário em questão revistasse sua bolsa. Um operador foi encontrado inconsciente em meio a um emaranhado de fitas. Testemunhas afirmam ter visto alguns monstros saindo da empresa em carros importados de nossos diretores, mas não confirmam se as seis bestas ou apenas parte do bando está nas ruas. Um senhor de 56 anos disse que foi abordado por uma das criaturas, que queria saber em que direção ficava Tóquio. Há cinco minutos foram vistos seguindo para... Ei!... Mas o que é isto?!... Socor... Argh!...
X X X
Às 17 horas a agência noticiosa CNN transmitiu o pronunciamento do presidente morte, digo, norte-americano sobre a crise nipo-latina-alienígena. O teor do discurso era a condenação daquilo que afirmava ser uma intervenção japonesa nos assuntos internos do seu quintal, digo, do Brasil:
- Considerando o poder de destruição já demonstrado pelos aparelhos eletrodomésticos e carros nipônicos, que invadiram o nosso mercado, podemos prever uma verdadeira carnificina no caso dos monstros agressores da capital cultural brasileira, Buenos Aires. O caso é ainda mais grave, pois evidencia uma aliança entre os orientais e seres de outros planetas, sobre cujas sociedades não temos qualquer informação, podendo inclusive tratar-se de comunistas.
Depois de conclamar todas as nações da Terra a pressionar para que o Japão retirasse seus monstros, eletrodomésticos e carros do Ocidente, rompendo a aliança com esses seres vermelhos e seus discos-voadores, o presidente do mund..., digo, dos Estados Unidos concluiu de forma bastante original e emocionada:
- Deus abençoe a Cidade Sorriso.
X X X
Entrevistado por diversos repórteres às 18 horas e quinze minutos em Brasília, o ministro do Exército, general Geraldo da Banda, reclamou que, devido à verba destinada às Forças Armadas ser insuficiente, estas não estavam preparadas adequadamente para o combate aos alienígenas vermelhos, tanto mais que seu preparo sempre visou a eliminação de comunistas tupiniquins ou, pelo menos, terráqueos. O general garantiu, no entanto, que as instituições democráticas seriam preservadas a qualquer preço, mesmo que para isso tivesse que fechar o Congresso ou prender e arrebentar algumas pessoas inocentes:
- Podem ser inocentes úteis, justificou o general.
X X X
A época era de eleições - o Brasil é como aquelas gordas que passam fome para emagrecer e, quando voltam a comer, não conseguem mais parar: ficou mais de vinte anos sem eleições de verdade e agora todo ano nos obriga a aturar personagens folclóricos, que teimam em se candidatar a qualquer coisa. Mas, como eu ia dizendo, a época era de eleições, e a inusitada fuga dos monstros causou um rebuliço danado nas coordenações das campanhas. Os partidos de esquerda começaram os entendimentos para a realização de um comício-monstro em defesa dos direitos das minorias, como homossexuais, índios e seres extraterrestres. Os redatores dos programas para o horário gratuito do TRE rasgavam os roteiros já escritos e criavam novos, abordando a invasão. Devido à rapidez dos acontecimentos, a maior parte dos programas não pôde ser regravada, e a maioria dos candidatos optou por fazer ao vivo sua aparição na TV.
O primeiro a falar foi o deputado de direita Amaral Filho. Ele estava defendendo a pena de morte para os alienígenas, quando o estúdio foi invadido pelos próprios. Um dos seres engoliu o deputado. Depois, disfarçando um arroto, sentou-se diante das câmeras e começou seu pronunciamento:
- Brasileiras e brasileiros, não acreditem no que andam dizendo a nosso respeito. É tudo intriga daqueles que invejam nosso sucesso. Não queremos fazer mal a ninguém. Se fugimos dos nossos filmes não foi por tédio ou maldade, queremos apenas, como os andróides do Blade Runner, conhecer o princípio de tudo, saber de onde viemos e para onde vamos, enfim, queremos perguntar ao responsável por nossa criação qual o sentido da vida. Por isso, exigimos: tragam-nos o Nacional Kid.
X X X
A madrugada avançava quando o presidente do Fã-Clube Nacionaro Kido, Akiro Tarô, entrou no estúdio cercado pelas tropas federais, para negocionar com os monstros. Após quinze minutos, apareceu à janela para avisar que estava tudo bem e que as negociações prosseguiam. Ao final de meia hora, protegidos pelos observadores internacionais enviados pela ONU, os seres deixaram o prédio, pacificamente, em companhia do negociador, que acenava e sorria para os repórteres, seguindo em direção à sede do fã-clube.
X X X
Em entrevista coletiva, na manhã seguinte, Akiro disse que comoveu os seres com sua paixão por Nacional Kid, a quem, como eles, jamais conhecera pessoalmente. Procurou sensibilizá-los para a necessidade de preservar sua imagem para as gerações posteriores e fazer a alegria de crianças e videomaníacos, enfim, jogou a maior conversa mole para monstro dormir... Para sua surpresa, as criaturas se convenceram, chegando mesmo às lágrimas, e concordaram em se juntar a Akiro e ajudá-lo em sua missão.
- Aliás, prosseguiu Akiro, gostaria de encerrar a coletiva, convidando a todos para assistir na próxima semana, na sede do fã-clube, à estréia da peça "Nacional Kid contra os Incas Venusianos", apresentando este que vos fala no papel de Nacional Kid, e os seres extraterrestres como os Incas Venusianos. Além disso, estamos programando para o mês que vem o lançamento do grupo Nacional Kids on the Block, meus amigos alienígenas já estão estudando os passos de dança, e acho que vai ser o maior sucesso. Arigatô e até breve.
E encerrou a entrevista.
sábado, 25 de fevereiro de 2012
MÉTODO DE EMAGRECIMENTO
É comum encontrarmos, no trabalho, em nossa própria casa e até mesmo em restaurantes, pequenos grupos de mulheres conversando sobre os mais variados métodos de emagrecimento. As mulheres também são de tipos bem variados: vão desde magras autênticas e falsas até aquelas que se situam no limiar entre a gostosura e a gordura. Curiosamente, o tipo menos comum nessas rodas é a gorda propriamente dita. Os motivos psicológicos de tal ausência são quase óbvios e não cabe aqui mencioná-los.
O que realmente deve ser mencionado é que todos os métodos parecem estar no caminho errado, pois em nenhum deles é preciso passar fome, e eu gostaria de saber como é que o organismo vai queimar suas reservas se você o mantém sempre satisfeito. Não me venham também com essa conversa de saúde, pois o que está em questão aqui é estética e sex-appeal. Quem se preocupa de fato com a saúde não tem esses problemas: sabe que um pouco de barriga é perfeitamente normal em nossa espécie.
Normal nos outros, é claro, porque eu não tenho nem um milímetro de barriga e, do alto da autoridade a mim conferida por meus poucos quilos (fruto mais da estrutura óssea que de tecido adiposo), passo a descrever agora o único método de emagrecimento capaz de transformar a mais opulenta das mulheres num misto de faquir etíope e contorcionista de Biafra.
A alimentação é muito importante, mas a não-alimentação é mais importante ainda. Faça como toda criança, seja enjoada para comer. Odeie feijão, arroz, todo tipo de verduras e legumes, jiló, fígado, dobradinha, rabada, etc., etc. Enfim, tenha nojo de tudo que for comestível. Fumar também é bom, de preferência uns dois maços por dia. Porres de bebidas destiladas (cerveja engorda) e outras substâncias consumidas por junkies inveterados são bastante recomendáveis. Por fim, procure, como todo bom brasileiro, estar constantemente sem dinheiro, assim, você será obrigado a deixar de almoçar algumas vezes durante o mês.
Se você achou o meu método muito radical e penoso, não se entristeça, você ainda pode tentar as pílulas milagrosas do doutor Rogério Magro. Basta tomá-las em vez das refeições que, segundo seu criador, o emagrecimento virá em poucos dias.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
SIMPATIAS SIMPÁTICAS
Outro dia, tentando escutar alguma notícia sobre o meu quase-time, o América, sintonizei o rádio numa estação AM e descobri, estupefacto, que existe um tal Cacique Não-sei-o-quê (que, para um cacique, até que fala português sem qualquer sotaque), cuja função é dar receitas de remédios feitos com ervas naturais para os mais diversos males. No mesmo programa, havia alguém, não me recordo se o cacique ou outro especialista, que ensinava simpatias para alcançar os mais diversos objetivos. Como achei as simpatias bastante ultrapassadas e, provavelmente, ineficazes, resolvi que é chegado o momento de revelar o segredo milenar das cinco simpatias simpáticas, que me foi confiado pelo grande mago Saulo Coelho.
- Simpatia para curar dor de cabeça: pegue um limão, corte em cruz, jogue um pedaço para trás por sobre o ombro, dê quatro pulos numa perna só (a esquerda), gritando "a-ô, a-ô, a-ô", e tome uma ou duas aspirinas. É tiro e queda.
- Simpatia para conseguir dinheiro: acenda uma vela de sete dias no banheiro de sua casa, reze três ave-marias e três padres-nossos durante sete dias e sete noites, venda todas as quinquilharias que você tem em casa e vá procurar um emprego, seu vagabundo.
- Simpatia para arrumar marido: acenda uma vela para Santo Antônio, escreva em tirinhas de papel três nomes de atores de Hollywood, coloque-as embaixo do travesseiro e ligue para aquele pobretão feioso que há anos vem implorando para casar com você.
- Simpatia para arrumar marido rico: tome um banho de loja, entre numa academia de ginástica e coloque um pouco de silicone aqui e ali, depois, frequente as boates da moda durante mil e uma noites e aperfeiçoe sua técnica sexual. Logo vai aparecer um otário querendo casar com você.
- Simpatia para vencer mesmo sendo professor (ou escritor): desculpe, mas milagre só quem faz é Deus.
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