- Que novidade é essa, menino?! Seu pai não vai gostar...
- Ah! Qual é, mãe? Dá um tempo!
Sentado na sala, o pai só faz confirmar a capacidade materna de prever o futuro:
- Que é isso, moleque?
- Um brinco.
- Ah, é?! Que gracinha! No meu tempo isso era coisa de mulher.
- É, mas agora não é mais.
- Ah!... Agora é de mulher e bicha, né?
- Ô, pai... Não tá vendo que eu tô usando ele na orelha esquerda?... Bicha usa é na orelha direita...
- Só faltava essa... Vai me dizer que homem também pode pôr cílios postiços, desde que seja no olho esquerdo?
- Eu desisto. Tchau, pai!
- Tchau, ô do brinquinho.
X X X
Enquanto ele está ouvindo um som no quarto, na sala o pai conversa com o filho mais velho, que chegara para o almoço:
- Pois é, seu irmão agora anda de brinquinho...
- Ah, que veadinho!... Quer dizer que ele furou a orelha?
- Não, era só o que faltava. É de pressão.
- Pelo menos isso.
Nisso, o objeto da conversa passa pela sala. Sem o brinco. O pai ataca:
- Ah, tomou vergonha na cara e tirou aquele troço!
- Não enche, pai!
E o irmão debochado:
- Aonde a Greta Garbo vai sem o brinquinho?
- Furar a orelha, por quê?
O pai quase enfarta.
X X X
Na volta, encontra o irmão hesitante:
- Ê... Posso te pedir uma coisa?
- Se for gozação, esquece.
- Não... É que... já que você furou a orelha, será que eu poderia ficar com o brinco de pressão?
- Ué, mas não era coisa de veado?!
- É. Mas acontece que a Lucinha gosta de homem com brinco.
- Tá legal, pode ficar, ô bichona.
- Eu sou é homem.
- Tá legal...
X X X
Com o tempo, o pai foi se acostumando e ficou mais tranquilo depois que soube que o filho adolescente arrumou uma namorada. Ele fez questão de conhecer a menina, era namorada mesmo.
X X X
Essa história me foi contada por um amigo e me fez lembrar o tempo em que tanto batalhei para usar o cabelo cobrindo as orelhas, esse corte hoje desprezado pela geração do brinco... Mas eu estou com o guri, temos mais é que brigar por nossas próprias vontades, eu sei o quanto isso é importante para a afirmação de nossa identidade. Vai fundo, garoto, e não dê bola para a senil incompreensão dos outros. Vai fundo.
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