domingo, 6 de maio de 2012

CONTINHO ESCATOLÓGICO

Era um homem feliz. Depois de alguns anos de luta, conseguira se estabelecer, ocupando um cargo de gerência na grande empresa onde trabalhava. Todos os dias, almoçava no restaurante da empresa, em companhia de gerentes de outras áreas. Seu temperamento (espirituoso, mas nunca a ponto de perder a compostura) despertava a admiração e o carinho dos colegas.
Um dia estava almoçando, como sempre fazia, na mesa dos gerentes, quando se ouviu, alto e bom som:
- Arrout!
Saiu de repente, ele não pôde evitar. Os amigos olharam sério, em tom de reprovação. Não adiantava fazer qualquer gracejo ou tentar se desculpar: a besteira estava feita.
Sem graça, deixou a mesa com o prato ainda na metade, fingindo mal-estar. Foi para casa mais cedo: não aguentava de vergonha!
Em casa, antes de dormir, pensou: "também não é tão trágico assim, já-já o pessoal esquece e fica tudo bem."
Não ficou. As semanas seguintes foram do mais perverso terror. A história havia extrapolado o círculo dos gerentes e alcançara toda a empresa. As pessoas o evitavam e, quando isso não era possível, o tratavam com frieza, franzindo o cenho e limitando-se ao estritamente necessário. Seus colegas de almoço mudaram de mesa e, se ele insinuava qualquer intenção de acompanhá-los, decidiam subitamente, sem avisá-lo, almoçar fora.
Agora a situação estava definitivamente insustentável: já era alvo das chacotas dos contínuos... Aquilo não podia prosseguir! Tomou a decisão mais dolorosa da sua vida: abandonou a empresa, que era como se fosse sua famíla, e resolveu começar de novo, tentando a sorte em outro lugar onde ninguém soubesse do episódio.
Por excesso de zelo ou pura paranóia, preferiu mudar também de cidade. Logo conseguiu emprego em outra firma, afinal, seu currículo era invejável. Foi galgando posições graças à sua disposição e ao seu espírito de liderança. Em pouco tempo teve seu valor novamente reconhecido: voltara à gerência, e numa firma muito melhor. Seu prestígio era tanto, que passou a almoçar com os diretores da empresa...
Foi então que num desses almoços se escutou:
- Puuffffff...

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